Diário do Futebol
História do futebol feminino: das pioneiras à conquista do mundo
Voltar para História

História do futebol feminino: das pioneiras à conquista do mundo

Conheça a história do futebol feminino no Brasil e no mundo: das pioneiras inglesas à proibição de Vargas, Marta e o cenário atual.

|Atualizado |8 min de leitura

O futebol feminino tem mais de um século de história, mas boa parte dessa trajetória ficou escondida, proibida e apagada por décadas. 

Mulheres que amavam o esporte foram impedidas por decretos, preconceitos e pressões sociais, mas nunca deixaram de jogar. Nem mesmo quando jogar era um ato de desobediência civil.

Essa é uma história de garra, resistência e conquista. Uma história que merece ser contada do começo.

As origens do futebol feminino no mundo

O futebol feminino nasceu quase junto com o esporte em si. Já no final do século 19, mulheres corajosas entravam em campo na Inglaterra, enfrentando olhares tortos e uma imprensa pouco entusiasmada com a novidade.

Em 1894, a ativista Nettie Honeyball fundou o British Ladies Football Club, o primeiro clube de futebol feminino do qual se tem registro formal. Ao lado de Lady Florence Dixie, ela organizou a primeira partida oficial, disputada em 23 de março de 1895 no campo do Crouch End Athletic, em Londres. 

Mais de 10 mil pessoas foram assistir, e a imprensa registrou o evento com surpresa, apesar do ceticismo: "Não acho que as partidas de futebol feminino vão atrair multidões", escreveu o Manchester Guardian na época. O tempo provou o contrário.

Um infográfico colorido detalhando a história do futebol feminino através de uma linha do tempo. O gráfico destaca marcos importantes desde 1894, como a fundação do British Ladies Football Club, as proibições do esporte na Inglaterra (1921) e no Brasil (1941), a revogação da proibição brasileira em 1979, a primeira Copa do Mundo em 1991, o primeiro título de melhor do mundo de Marta em 2006 e a confirmação da Copa do Mundo de 2027 no Brasil.

Da popularidade à proibição na Inglaterra

Nas primeiras décadas do século 20, o futebol feminino ganhou um fã-clube de verdade. A atacante Lily Parr, por exemplo, ajudou a reunir mais de 53 mil torcedores numa final de campeonato em 1920, um recorde que durou décadas.

Mas o crescimento do esporte assustou as entidades. Em 5 de dezembro de 1921, a Federação Inglesa de Futebol (FA) proibiu que times femininos usassem os estádios filiados, alegando que o esporte era "inadequado para mulheres"

A medida travou o desenvolvimento da modalidade nas Ilhas Britânicas por quase 50 anos. Só em 1969, após a Copa do Mundo de 1966 aquecer o interesse popular pelo futebol, a FA voltou atrás e criou seu departamento feminino.

O futebol feminino chega ao Brasil

No Brasil, os primeiros registros de mulheres jogando futebol datam dos anos 1920, ainda de forma tímida e tratada como entretenimento. 

Jornais do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Rio Grande do Norte documentaram partidas em circos e festas juninas, mas o esporte era encarado como performance, não como competição.

A primeira partida feminina considerada oficial no Brasil aconteceu em 1921, entre moças dos bairros Tremembé e Cantareira, na zona norte de São Paulo, conforme noticiado pelo jornal A Gazeta.

Apesar do pioneirismo, as mulheres que jogavam futebol eram tratadas com desprezo social, especialmente as das camadas mais pobres.

O decreto que proibiu o futebol feminino no Brasil

Em abril de 1941, o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei 3.199, que proibia as mulheres de praticarem esportes "incompatíveis com as condições de sua natureza". O texto era claro na discriminação: futebol, halterofilismo, beisebol e lutas estavam fora dos limites para as mulheres.

O discurso oficial dizia que esses esportes poderiam prejudicar as funções orgânicas femininas e até a capacidade de ser mãe. 

Historiadores do esporte, como Aira Bonfim, apontam que a real preocupação não era com a saúde das mulheres, e sim com o incômodo que elas causavam ao ocupar espaços tradicionalmente masculinos. A proibição durou 38 anos.

As pioneiras que desafiaram a proibição

A lei proibiu, mas não impediu a resistência. Mesmo durante as décadas de repressão, mulheres jogavam futebol de forma discreta, longe das câmeras e dos documentos oficiais. Um dos casos mais conhecidos é o das pioneiras de Araguari, em Minas Gerais.

Em 1958, mais de 40 meninas participaram de uma peneira organizada pelo Araguari Atlético Clube, algumas delas escondidas dos próprios familiares. O clube chegou a ter dois times, lotou estádios em diferentes estados e recebeu até convite para jogar no México. 

A história durou menos de um ano: a proibição encerrou tudo em 1959. Outro nome marcante desse período é o da árbitra Léa Campos, que nos anos 1970, ainda sob a vigência da lei, fez curso de arbitragem e se tornou a primeira mulher a apitar jogos masculinos no Brasil.

A legalização e os primeiros passos oficiais

O Decreto 3.199 foi revogado em 1979, mas a regulamentação completa do futebol feminino no Brasil só veio em 1983. A partir daí, as mulheres puderam finalmente competir de forma oficial, criar calendários e utilizar estádios. 

O problema é que o fim da proibição não veio acompanhado de estrutura, investimento ou interesse das federações.

O futebol feminino brasileiro caminhou a passos lentos durante os anos 1980, mas ganhou força com uma conquista histórica: a inclusão nas Olimpíadas de 1996, em Atlanta. O Brasil participou desde o início e passou a ter na seleção feminina um símbolo de orgulho nacional.

A história do futebol feminino nas Copas do Mundo

A Copa do Mundo Feminina oficial, organizada pela FIFA, teve sua primeira edição em 1991, na China. O Brasil estreou no torneio sem nem um ano de preparação e caiu logo na fase de grupos, mas foi aprendendo com cada edição.

O auge veio em 1999, com o terceiro lugar conquistado nos pênaltis sobre a Noruega, a primeira medalha brasileira numa Copa. 

Em 2007, na China, o Brasil fez a melhor campanha de sua história: chegou à final, onde perdeu para a Alemanha. Naquele torneio, a craque Marta fez um gol na semifinal contra os Estados Unidos que entrou para a lista dos mais bonitos do futebol feminino mundial.

Registro fotográfico de um momento marcante na história do futebol feminino: a jogadora brasileira Marta, vestindo a camisa 10 da seleção, disputa a posse de bola contra duas defensoras dos Estados Unidos durante uma partida oficial em um estádio lotado. Marta aparece em movimento dinâmico de drible, simbolizando a técnica e a resistência da modalidade.

Marta: a maior da história do futebol feminino

Falar da história do futebol feminino sem falar de Marta Vieira da Silva seria impossível. A alagoana surgiu para o mundo no começo dos anos 2000 e rapidamente se tornou a melhor jogadora do planeta, título que conquistou seis vezes. 

Com 17 gols em Copas do Mundo, Marta superou o recorde do alemão Miroslav Klose e se tornou a maior artilheira da história dos Mundiais, entre homens e mulheres. 

A rainha do futebol também foi a primeira atleta a marcar gols em cinco edições diferentes de uma Copa do Mundo. Esses números não são apenas recordes: são a prova de que o futebol feminino sempre teve craques à altura de qualquer geração.

Que tal relembrar um momento inesquecível da carreira da melhor jogadora de todos os tempos? Confira no vídeo o hat trick da Marta, na inesquecível virada por 3x2 da Seleção Brasileira contra os Estados Unidos em 2014:

O desenvolvimento do futebol feminino no Brasil pós-2000

A partir dos anos 2000, o futebol feminino brasileiro começou a ganhar mais estrutura. A CBF lançou o Campeonato Brasileiro Feminino em 2013, com 20 clubes na primeira edição. Foi um passo importante, mas ainda insuficiente diante das desigualdades que persistiam.

Um marco regulatório relevante veio em 2019, quando a FIFA e a Conmebol passaram a exigir que os clubes participantes da Libertadores e da Sul-Americana tivessem equipes femininas. 

A CBF também determinou que, a partir daquele ano, todos os times da Série A do Brasileirão deveriam ter time feminino. 

Para 2027, a CBF já anunciou que a obrigatoriedade se estenderá às quatro divisões do campeonato nacional, uma medida que, se mantida, pode ser um passo importante para a profissionalização em larga escala da modalidade.

O cenário atual do futebol feminino

O futebol feminino hoje vive um momento de crescimento real e visível. Públicos maiores nos estádios, transmissões em TV aberta, patrocínios e contratos profissionais mais estruturados fazem parte de um cenário que, há 20 anos, parecia distante.

A seleção brasileira acumula: 

  • Oito títulos da Copa América Feminina (1991, 1995, 1998, 2003, 2010, 2014, 2018 e 2022)

  • Três ouros olímpicos nos Jogos Pan-americanos (2003, 2007 e 2015) 

  • Medalhas de prata nas Olimpíadas de 2004, 2008 e 2024. 

O objetivo que ainda falta é o mais cobiçado: o título mundial. Mas, com a nova geração de jogadoras que vai surgindo, esse sonho parece cada vez mais próximo. Inclusive, a Copa do Mundo Feminina de 2027 será no Brasil, um cenário perfeito para a conquista canarinha!

A realização do torneio no Brasil promete ser um momento histórico para o esporte, que pode deixar um legado de igualdade e valorização do futebol feminino.

Quanto o futebol feminino avançou (e quanto ainda falta)

A história do futebol feminino é uma sequência de conquistas arrancadas à força, contra a maré do preconceito. Da proibição de Vargas às arquibancadas cheias da Copa do Mundo, o percurso foi longo e marcado por mulheres que não aceitaram ser impedidas de jogar.

Mas reconhecer o progresso não significa fechar os olhos para as lacunas. A diferença de salários, a cobertura ainda desigual da imprensa e a infraestrutura precária em boa parte dos clubes mostram que o trabalho está longe de terminar. 

O futebol feminino merece o mesmo respeito, o mesmo investimento e a mesma paixão que o masculino. Afinal, o esporte é um só.

Leia também: 

FC

Jornalista especializada em esportes e iGaming | Escreve sobre apostas esportivas, futebol, estatísticas e performance de equipes e atletas.


Francielle Carvalho é jornalista especializada em esportes e apostas esportivas. Desde 2019 tem sua atuação voltada à produção de conteúdo digital sobre futebol, análise tática, estatísticas e performance de equipes e atletas.

Desenvolve conteúdos para portais esportivos e plataformas de iGaming, com análises, palpites, guias de apostas e coberturas de campeonatos nacionais e internacionais, com foco em SEO, dados e cobertura factual.

Compartilhe este bônus com seus amigos