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Racismo na Copa do Mundo 2026: casos que reforçam a urgência do combate à discriminação
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Racismo na Copa do Mundo 2026: casos que reforçam a urgência do combate à discriminação

|8 min de leitura

O racismo na Copa do Mundo 2026 se tornou um dos temas mais discutidos fora de campo. Mesmo com 48 seleções, milhões de torcedores e um espetáculo genuinamente global, o Mundial disputado nos Estados Unidos, no México e no Canadá também expôs episódios graves de discriminação, tanto dentro dos estádios quanto nas redes sociais.

Os números divulgados pela Fifa assustam. E os casos que viraram notícia, envolvendo jogadores, torcedores e até um influenciador digital, mostram que o problema está longe de ser pontual. Entenda a seguir os principais episódios e o que está sendo feito para combatê-los.

O que a Fifa revelou sobre racismo na Copa 2026

Logo na fase de grupos, a Fifa já tinha um retrato preocupante em mãos. O Serviço de Proteção às Redes Sociais (SMPS), ferramenta da entidade para monitorar ataques online durante torneios, identificou 89 mil publicações abusivas nas redes sociais, número 13 vezes maior do que o registrado na Copa do Catar, em 2022.

Desse total de mensagens de ódio, o racismo representou 11% de todo o conteúdo ofensivo identificado. O dado veio de uma análise gigantesca: mais de 6 milhões de publicações e comentários foram analisados, volume 33% superior ao registrado em 2022.

A parte mais séria do levantamento é o desdobramento jurídico. Segundo a Fifa, mais de 100 casos já atendem aos critérios legais para abertura de processos judiciais. A entidade também informou que o sistema não serve só para apagar publicações. Ele reúne provas para ajudar autoridades policiais a identificar quem está por trás dos ataques.

Jogadores atacados nas redes durante o Mundial

Nem os melhores momentos da Copa ficaram livres do racismo. Um dos episódios mais citados envolveu a seleção holandesa, logo após a eliminação para Marrocos. Depois de desperdiçarem cobranças na disputa de pênaltis, os jogadores Justin Kluivert, Quinten Timber e Crysencio Summerville sofreram ataques racistas nas redes sociais.

O padrão se repete há anos no futebol mundial: um erro em campo vira gatilho para ondas de ódio direcionadas a atletas negros. A diferença, agora, é que a Fifa consegue rastrear e documentar esse tipo de ataque com muito mais precisão do que em edições anteriores da Copa.

O gesto antirracista e o caso do técnico do Egito

A Copa de 2026 também marcou a estreia do protocolo antirracista da Fifa em Mundiais masculinos. O gesto, criado para casos de discriminação em campo, virou notícia nas oitavas de final. Durante a vitória argentina sobre o Egito, o técnico egípcio Hossam Hassan fez o gesto oficial criado pela Fifa para denunciar casos de racismo em campo.

A cena gerou revolta imediata. Logo após a sinalização, o treinador egípcio foi advertido com cartão amarelo por reclamação, e a arbitragem não interrompeu a partida nem fez qualquer anúncio público indicando o acionamento do protocolo. Nas redes, a repercussão foi grande, com internautas divididos sobre a real intenção do gesto do técnico.

Como funciona o protocolo antirracista da Fifa

O procedimento foi pensado para dar uma resposta padronizada e rápida a episódios de discriminação, sem depender só do julgamento do árbitro na hora. Ele segue três etapas progressivas.

  1. Interrupção da partida: ao identificar o gesto de braços cruzados em "X", o árbitro para o jogo e um anúncio é feito ao público pedindo o fim da conduta discriminatória.

  2. Suspensão temporária: se os atos continuarem, a segunda etapa determina a suspensão da partida, com o retorno das equipes aos vestiários.

  3. Encerramento definitivo: caso o problema persista mesmo após o reinício, o árbitro pode encerrar o confronto de vez, sempre em consulta com delegados e responsáveis pela segurança do estádio.

O gesto em "X" não nasceu na Copa de 2026. Ele foi aprovado durante o 74º Congresso da Fifa, em Bangcoc, em maio de 2024, mas o Mundial deste ano foi o primeiro grande palco masculino a testá-lo sob os holofotes do planeta inteiro.

O caso IShowSpeed e a investigação aberta pela Fifa

Outro episódio que ganhou repercussão mundial envolveu torcedores argentinos e um nome fora do futebol profissional. Durante a partida entre Argentina e Cabo Verde, o influenciador americano IShowSpeed, de 21 anos, assistiu ao jogo usando a camisa da seleção africana e apareceu em vídeos publicados nas redes sociais sendo hostilizado por torcedores argentinos.

A repercussão foi tão grande que obrigou a Fifa a se posicionar oficialmente. Após a repercussão das imagens, a Fifa confirmou que abriu uma investigação para apurar um possível caso de racismo. Em nota, a entidade reforçou sua postura de tolerância zero, afirmando que atitudes discriminatórias não têm espaço no futebol nem em qualquer parte da sociedade.

A lei Vini Jr. chega à Copa do Mundo

Um dos legados mais concretos da luta antirracista no futebol recente ganhou aplicação prática dentro do Mundial de 2026. A chamada lei Vini Jr., criada depois de episódios envolvendo o atacante do Real Madrid, passou a valer nas quatro linhas da competição.

A regra pune jogadores que cobrem a boca durante discussões em campo, gesto usado historicamente para dificultar a identificação de ofensas discriminatórias. Na Copa 2026, ela já gerou duas expulsões. O primeiro caso ocorreu na partida entre Turquia e Paraguai, com o meia paraguaio Miguel Almirón expulso após cobrir a boca durante uma discussão com o turco Mert Müldür. Depois, o zagueiro equatoriano Piero Hincapié recebeu cartão vermelho pela mesma regra, no confronto contra o México.

A origem da lei remonta a um episódio específico envolvendo o brasileiro. A proposta foi adotada após o caso envolvendo Vinícius Júnior, que relatou ter sofrido ofensas racistas ao ser chamado de "macaco" pelo argentino Gianluca Prestianni, do Benfica.

O caso Mbappé e a resposta do próprio jogador

Um dos episódios mais graves de racismo na Copa do Mundo 2026 aconteceu fora de campo, mas ganhou repercussão internacional imediata. Depois da vitória da França sobre o Paraguai nas oitavas de final, com gol decisivo de pênalti, Kylian Mbappé foi alvo de uma sequência de ofensas racistas publicadas pela senadora paraguaia Celeste Amarilla nas redes sociais.

As mensagens atacaram a origem, a criação e a aparência do capitão francês, chegando a comparar o jogador a animais. O caso rendeu investigação da Procuradoria de Paris por injúria agravada e incitação ao ódio, além de manifestações de apoio da Fifa, da ONU e do próprio presidente da França, Emmanuel Macron.

Mbappé não ficou em silêncio diante do episódio. Nas redes sociais, o atacante rebateu diretamente a senadora, chamando-a de mulher desprezível e indigna do cargo que ocupa no Congresso paraguaio. Ele também criticou o impacto do episódio sobre a imagem da própria Copa do Mundo, afirmando que o racismo flagrante da parlamentar fez o mundo esquecer a trajetória e o esforço histórico da seleção paraguaia no torneio.

A fala do craque francês resume bem o que está em jogo quando um episódio desses ganha as manchetes. Mais do que uma resposta pessoal, o desabafo de Mbappé chamou atenção para como um ataque racista isolado pode ofuscar conquistas esportivas legítimas e manchar a imagem de todo um país durante o Mundial.

Xenofobia e restrições migratórias também marcaram o torneio

O racismo na Copa do Mundo 2026 não apareceu só dentro das quatro linhas ou nas redes sociais. Questões migratórias envolvendo os Estados Unidos, país-sede, também levantaram acusações de discriminação institucional antes mesmo da bola rolar.

Um dos casos mais comentados envolveu a arbitragem internacional. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan teve visto negado pelos Estados Unidos e foi considerado "inadmissível" após verificação de antecedentes, mesmo sendo um dos nomes mais respeitados do continente africano.

A seleção do Irã também enfrentou entraves práticos por causa da tensão geopolítica com os Estados Unidos. Embora os vistos dos jogadores tenham sido emitidos, a delegação ficou baseada em Tijuana, no México, fazendo viagens rápidas aos Estados Unidos apenas para os jogos. Para dirigentes iranianos, a exigência representa um tratamento desigual em relação às demais seleções.

Por que o combate ao racismo no futebol importa tanto

Depois de entender a dimensão dos casos, fica mais fácil enxergar por que o respeito precisa ser tratado como prioridade, e não como discurso ocasional. O futebol é, ao mesmo tempo, o esporte que mais celebra a diversidade e o palco onde essa diversidade ainda enfrenta resistência.

Cada gesto antirracista acionado em campo, cada investigação aberta pela Fifa e cada lei aprovada em nome de um jogador que sofreu discriminação carregam o mesmo recado: o espaço para o racismo no esporte precisa diminuir, e a responsabilidade por isso não é só das entidades organizadoras.

Torcedores, clubes, seleções e veículos de comunicação também fazem parte dessa construção. Denunciar um episódio, cobrar punições e recusar qualquer forma de piada ou comentário discriminatório no dia a dia são atitudes que, somadas, fazem diferença real. O futebol só continua sendo essa festa mundial se for, de fato, um espaço seguro para todos que o praticam e o acompanham, independentemente de cor, origem ou nacionalidade.

Continue acompanhando o Diário do Futebol para conferir a cobertura completa da Copa do Mundo 2026, análises, notícias e os principais acontecimentos do futebol mundial. Informação responsável também é uma forma de fortalecer o respeito, a inclusão e o combate a todas as formas de discriminação no esporte.

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